quinta-feira, 7 de junho de 2012

Não é justo! Dói muito!!

Enfim, é chegada a hora de compartilhar a dor da perda com o serzinho que mais amamos em todo o universo!  Nossas pequenas crias! Chegou o momento daquela criaturinha frágil e indefesa que tanto zelamos e protegemos passar por uma das dores mais complexas e imprescindível da existência humana, o luto!

Nossa família vem passando por um processo de adoecimento familiar significativo que fez com que nossa filha, Letícia, passasse a significar aos poucos a veracidade da morte e sua possibilidade diante dela. Ela já ouvia falar de morte pelo fato de não ter a avó materna, que morreu bem antes do nascimento da Le, mas tudo num patamar abstrato e subjetivo. Conseguia compreender minha saudades com relação a minha mãe, passou a ter carinho por ela, mesmo nunca a tendo visto ou convivido com ela. Muito disto se da pelo amor que nutri  por mim e seu cuidado por não gostar de me ver sofrer. (sou demasiadamente abençoada!)


O fato é que seu bisavô paterno estava doente havia algum tempo, tendo uma piora significativa nos últimos meses e em meados de maio passado ele faleceu durante a madrugada. Decidi que contaria a ela e a deixaria escolher se queria ou não participar das cerimônias cristãs que se celebram nestas ocasiões. Eu imaginei que sua reação seria de tristeza, mas ao receber a notícia pela manhã, depois de acordar e tomar seu café da manhã como nos outros dias, ela desabou. Chorou um choro baixo e dolorido de quem sente uma dor que sabe não poder conter, uma choro profundo e baixinho, tão sofrido! Meu coração se fez em mil pedacinhos, como eu poderia acalentar minha filhinha naquela hora e fazer com que deixasse de sentir aquela dor que a acometia a alma. Uma alminha pura e tenra.


Não tinha o que fazer, apenas deixá-la sentir sua dor e expressá-la do modo como conseguisse. Ela chorou eu a abracei carinhosamente e a reconfortei explicando que eu iria ao velório para ficar ao lado de seu pai e família até a hora do enterro. Ela então me disse, "mãe porque dói tanto, não é justo!" e eu reconhecendo aquele sentimento a respondi: "Filha, não é justo sermos egoístas a ponto de não o deixarmos partir para poupar a nossa dor, pois devemos considerar a dor que ele vivia diariamente naquele hospital. Ela chegou a visitá-lo quando ele ainda estava no quarto do hospital e acompanhou todo o processo anterior durante o período em que se tratou em casa, submetendo-se a diálise todos os dias. O processo de dor e da possibilidade de perda já a estava rodeando há tempos e por isso penso que viveu o momento de forma mais madura do que o esperado para sua pouca idade.


Ela se recompôs e decidiu que iria ao velório e caso preferisse ir embora me avisaria e eu a levaria para a casa da tia (minha irmã). Ela se trocou e fomos. No caminho ela repassou comigo como era um velório e  chegando lá ela cumprimentou algumas pessoas logo na entrada e depois foi direto para onde estava o pai, a quem abraçou calorosamente e voltou a chorar como fazemos quando encontramos alguém que compreende o que estamos sentindo. Depois foi até a avó e ficou firme a seu lado, como se a apoiasse naquele momento tão difícil pra ela.


Um misto de emoções se misturaram em meu íntimo, queria poder poupá-la daquele sofrimento, mas sabia que ela teria que aprender a vivenciá-lo, por outro lado um sentimento de orgulho, uma sensação de estar no caminho certo com relação ao modo como a estamos criando tomou conta de mim. Ela é solidária, tem compaixão e apesar de pequena e frágil ela é extremamente forte! Meu coração transbordava de tanto amor e gratidão por poder ser a mãe daquela criança tão maravilhosa!


Por fim, dias depois na casa da avó onde encontramos também com a bisa (esposa do bisavô falecido), esta se virou pra nós e disse algo mais ou menos assim: "Eu nunca imaginei que a Letícia se tornaria essa menina tão especial, ela era tão chatinha quando menor!". Rimos com um contentamento sincero pelas palavras igualmente sinceras da nossa amada e respeita Bisa Rosa.




Biso Vicente (i.m) em agosto de 2009.













Bisa Rosa, Pedro e Biso Vicente  (i.m.) em abril de 2012.

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